Nos últimos 50 anos, grandes evoluções aconteceram, nas técnicas de concepção de flautas transversais, com enorme benefício para o instrumentista, que dispõe de uma grande gama de opções para poder escolher e, personalizar o seu instrumento :
- Aperfeiçoamento da escala.
- Novos conceitos e diversidade de sapatilhas, com melhor qualidade.
- Novos conceitos e formas da embocadura e cheminé.
- Mecanismos adicionais.
-Diferentes materiais, ou combinação entre os mesmos, os quais, entre si, afectam o espectro tonal do instrumento e, permitem uma escolha individualizada ao gosto do instrumentista.
Os “ Modernos Artesãos”, têm sido muito engenhosos e profícuos nas suas pesquisas e inovações em termos mecânicos e acústicos.
Muitos deles são excelentes flautistas e, com formação interdisciplinar em áreas tão vastas como a Física, Engenharia Mecânica, Ciências Sociais e Humanas, Design, Joalharia, etc.
A maioria dos instrumentistas, omitem este importantíssimo detalhe ou, desconhecem-no por completo.
Quanto mais não fosse, teríamos o exemplo do “pai” da flauta moderna: Th. Boehm.
Apesar de muitos pesquisadores afirmarem que em termos acústicos e mecânicos, sobre a flauta (na sua génese), pouco ou nada foi alterado desde Th.Boehm, e que 98% do que constamos hoje já teria sido inventado por ele, certo é , verificarmos que toda esta diversidade temática, ainda continua a gerar saudáveis polémicas, mas também muita confusão. Mesmo flautas hoje produzidas massivamente, como as designadas empíricamente por “Flautas de Estudo ou Iniciação”, em oposição às designadas por “ Semi-Profissionais e Profissionais” vulgo “Hand-Made”- em diferentes metais ou combinados entre si -, tiveram uma evolução muito especial.
Um dos elementos na concepção de flautas transversais, que continua a gerar uma grande diversidade de opiniões, é o desenho e concepção de cabeças, e a influência dos materiais das partes que a integram.
Uns afirmam que esta é responsável por 75% da qualidade tímbrica, projecção, dinâmica do som produzido. Outros afirmam que 50% e,outros há, defensores de 45% e 35%, como se tudo isso fosse mensurável.
Em teoria, todos esses conceitos são respeitáveis, no entanto, onde parece existir unanimidade, é no facto que a cabeça é um elemento importantíssimo que influencia o timbre, projecção e dinâmica, mas também, o elemento mais fácil de substituir e personalizar ao gosto do instrumentista.
Nesta integração, incluimos o “stopper” ( rôlha, numa tradução literal para português), elemento importantíssimo na afinação.
O “stopper” mais usual é composto por quatro peças. Um disco integral com um veio roscado. Uma cortiça em forma cilíndrica . Um outro disco independente, que aperta na parte superior por compressão sobre a cortiça e, uma corôa.
Hoje existem diferentes tipos de “stoppers” com desenhos e materiais diferentes combinados entre si, no entanto, centremo-nos no (ainda) mais comum, e que inclui o elemento de cortiça.
Uma cortiça "saudável" da cabeça da flauta, é muito difícil mover-se por si mesma. Alguns construtores, usam mesmo um ou dois anéis de borracha (Mateki e Lafin por exemplo) , com o intuito de aumentar o selo hermético final, no contacto do “stopper” com a parede do tubo interior da cabeça. O posicionamento correcto do “stopper”, é determinante para a afinação do instrumento e deve distar 17.3 mm, entre o disco integral, e o centro do orifício da embocadura.
Existem diferentes teorias, sobre a qual poderá ser movida entre os 19 e os 17 mm, para adequar a afinação, no entanto, esta solução parece ter mais desvantagens que vantagens. Nesse caso ( em teoria), cada intervalo necessitaria de um ajuste do "stopper".
Por norma, a cortiça tem um comprimento com uma váriavel de tolerância entre 31 a 31.75mm. No entanto, existe uma outra teoria nada inovadora ( já utilizada pelos construtores alemães e franceses do Séc.XIX/XX, por razões óbvias de ampliação do espectro acústico) e, desde há muito testada pelos construtores ainda actuais, que a dimensão da cortiça terá um efeito imediato em termos de projecção e ressonância do instrumento, se reduzirmos a sua dimensão para 25.4 mm.
Alguns construtores ( muito poucos ), utilizam esta técnica, dependente de outras variáveis relativas ao conceito de cabeça em questão.Se assim fosse, todos adoptariam esta norma, porém, a conclusão da maioria, é que o desenho, tipo e qualidade dos materiais dos quatro elementos que constituem o “stopper” e, o peso produzido na sua interacção, afecta mais o espectro tonal do instrumento , que cortar a cortiça uns poucos milímetros.
O conjunto das 4 peças, reduzidas a um valor inferior a 2 gramas, tem-se provado não ser nada benéfico em todo o espectro acústico, mas principalmente, no registo agudo.
Nesse sentido, poderemos citar alguns exemplos que consideramos caricatos e constatados por nós:
-Um instrumentista, durante um Seminário de Flauta Transversal, decidiu demonstrar as suas “inovações acústicas” e, reduziu as cortiças de várias cabeças, utilizando como “cobaias”, instrumentos de alunos do curso básico. Mesmo que o resultado fosse positivo, um aluno deste nível nunca sentiria esse efeito. Mas tudo isso seria justificável, se esse gesto não resultasse numa posterior substituição da “velha” cortiça, por uma outra nova colocada por nós, com o respectivo dispêndio financeiro para o aluno. A “velha” cortiça, além de mal cortada estava mal colocada. Para colocar um “stopper” ou fazerem-se alterações, serão necessárias ferramentas especiais e adequadas para o efeito, inclusivamente para não danificar o interior do tubo, além de deverem ser respeitadas as variáveis definidas pelo construtor e, por consequência, o que poderemos alterar.
Posteriormente, tivemos uma outra aluna, esta de um nível muito superior, extremamente dedicada e talentosa. Dirigiu-se a nós, lamentando-se que havia adquirido uma cabeça Arista (?), e que sentia imensos problemas a nível de afinação, constatando que o “stopper” movia-se deliberadamente. Como necessitava da flauta com urgência-porque tinha provas e concursos que se aproximavam- efectuamos a correcção na hora ( facto que detestamos em situações algo complexas como esta, em que a pressa é "inimiga" do óptimo) e, então, deparamos com algumas inesperadas surpresas, que não merecem mais que a classificação de " autêntica biscatada ". O facto mais saliente e "intrigante", é uma cabeça recentemente adquirida, integrar um "stopper" nas condições que poderão verificar nas figuras 1 e 2.
Apesar de não estar fixo no interior do tubo, tivemos imensa dificuldade em retirar o mesmo por processos convencionais. A cortiça estava muito mal cortada, velha e replecta de colas inadequadas para o efeito, nada em consonância com o elevado preço pago pela cabeça. Neste aspecto, nunca deveriam ter sido utilizadas colas para fixar a cortiça ao interior do tubo, no entanto, percebemos o objectivo. O objectivo, foi “remediar” o “irremediável”, "inventando".
Neste caso específico, qual seria a função e efeito do “stopper”...?
Deixamos a resposta para si, que está a ler este texto.
O que fizemos então (imagens 3 e 4) ?
- Restauramos o disco inferior com o veio integral roscado e o disco superior, que se encontravam danificados. e, optamos pela medida de 25.4 mm porque se adequa a este modelo de cabeça.
Estes são “bons” exemplos do que não deve ser efectuado nem generalizado, quando a teoria é confundida com a realidade e, os intervenientes, não possuem os instrumentos adequados para manipularem essa realidade. Existe muita e boa bibliografia, de autores que dedicam o seu tempo a pesquisarem e a compreenderem essa realidade, no entanto, atitudes destas só demonstram negligenciar a inteligência destes, e de todos os outros que constroem flautas, além daqueles muitos outros colegas, também pedagogos, deontológicamente correctos.
IMPORTANTE
1- Uma verificação regular do posicionamento do "stopper" é muito importante.
2- Para o fazer, utilize a varêta de limpeza da sua flauta ( imagem 5), a qual tem uma marca bem definida na extremidade.
3- Constatamos que muitos instrumentistas, desconhecem este facto importantíssimo.
4- Insira-a no interior do tubo e, certifique-se que a mesma se posiciona ao centro do orifício da embocadura.
5- Se estiver deslocada, deve reposicionar a mesma.
Convém salientar que o facto de muitas vezes o “stopper” encontrar-se deslocado, só pelo seu reposicionamento nada resolve.
A cortiça deve estar bem fixa, ao ponto de criar um vácuo de selagem hermética.
Quando se move com muita facilidade, então, deverá ser substituída. Para isso consulte um técnico especializado, tomando em consideração que existem cortiças distintas para flautas distintas, tanto em diâmetro e comprimento, como em qualidade.
Alguns exemplos de diferentes "stoppers", mas de estrutura convencional, na imagem 6. A imagem corresponde a 3 novos e 3 usados, um deles de uma cabeça Marigaux, com mais de 100 anos.
A longevidade desta parte importante da flauta, varia entre dois a cinco anos. O seu desgaste, deve-se principalmente a variações térmicas e humidade.
Mover constantemente este elemento, no intuito de encontrar a “afinação ideal”, é a negação de alguns princípios importantes sobre a estrutura acústica da flauta, além de danificar a cortiça, gerando perdas de ar e por consequência, alterações na emissão e projecção do som.
Uma forma de preservar a durabilidade do “stopper” e o seu correcto posicionamento, é evitar limpar o interior da cabeça exercendo demasiada pressão com a varêta, no contacto com o disco integral.
Atenciosamente
Atelier Artisdivine